A Maldição - Último Capítulo

  O brilho nego dos olhos era devastador, não era um olhar de medo, nem terror, era um olhar demoníaco, um olhar que trazia caos e temor.
  Os amigos perplexos com aquilo e tomados pelo medo, não conseguiram se mover, já a velha que havia contemplado a face da besta abriu o livro rapidamente, e procurou a pagina que emitia uma fraca luz e assim que a achou, leu em voz alta a frase que reluzia: “Proieci te angelum tenebrarum.”, assim que o demônio ouviu as palavras ele se retorceu e olhou diretamente para ela, então fincou as garras no chão na tentativa de ganhar impulso para pular em direção à velha que mantinha o livro em mãos e agora elevava uma das mãos em direção ao demônio que em segundos se lançou em direção a ela, em um grito firme ela proclamou “Circumdederunt me” e uma barreira de luz que iluminou toda a cabana surgiu entre ela e o demônio que bateu nela com toda sua força, e então ela direcionou o livro para a fera e exclamou “Obscurum pallium” e uma luz saiu do livro e ultrapassando a barreira conjurada pela velha, foi em direção ao demônio que assim que foi atingido pela luz cambaleou e em seguida pulou em direção ao teto da cabana, assim levantando voo e passando pela palha que encobria a velha casa da velha, então foi em direção ao céu e desapareceu na noite.
  — Mas o que foi isso?! – perguntou uma das crianças.
  — O demônio! – disse a velha ofegante.
  — Para onde ele foi? – perguntou outro amigo.
  — Não sei, mas ele vai voltar! – ela disse.
  — O que foi isso?! – exclamou uma mulher entrando pela porta da cabana da velha.
  — Chame o sexto guardião! – disse a velha.
  Então a mulher espantada correu e foi em direção à outra cabana.
  — Quem é o sexto guardião!? – perguntou uma das crianças.
  — Parem de fazer perguntas e saiam. Chamem todos os guerreiros da vila, agora! – a velha disse.
  As crianças assustadas saíram correndo e foram chamar todos os homens que ainda restavam na velha vila.
  Após certo tempo, um velho, de cabelo branco e pele enrugada entrou na cabana.
  — Porque mandou me chamar? – ele perguntou.
  — Ele está de volta! – disse a velha.
  — “Ele” quem?
  — Xaphan. – a velha disse.
  — Eu temia que fosse! – disse o velho. – Como faremos?!
  — O aprisionaremos! – ela disse.
  — Mas somos o que resta dos guardiões, não conseguiremos fazê-lo sozinhos.
  — Teremos que tentar! – ela disse.
  — Onde ele está?
  — Não sei, mas vai voltar, afinal, temos o que ele quer... – ela falou olhando para o livro.
  — Estamos aqui! – disse um homem seminu, robusto e de cabelos negros com uma barba que encobria boa parte do rosto.
  — Há quantos aí fora? – ela perguntou para ele.
  — Cerca de vinte. – ele respondeu.
  — Não é muita coisa... – disse o velho.
  — Somos os mais experientes dos guerreiros! – disse o homem.
  — Sua experiência não vai servir está noite! – disse a velha.
  — Por quê? – perguntou o homem.
  — Por que não irão lutar com um animal e sim com um demônio! – disse o velho.
  O terror nos olhos do homem pode ser notado, porém ele se conteve e então disse:
  — Não sobreviveremos, não é?
  O olhar da velha e o silencio da cabana bastou como resposta.
  — Se preparem! – disse o velho.
  — Já estamos preparados! – disse o homem.
  — Vamos! – disse a velha.
  Todos saíram da cabana e se posicionaram no centro da vila, a crianças e mulheres saíram em busca das montanhas, os homens junto à velha e ao sexto guardião permaneceram na vila.
  A noite estava calma e o céu era coberto por nuvens negras que impediam que o brilho das estrelas acalmassem os corações temerosos dos guerreiros. Foi então que uma grande nuvem se dissipou e revelou o brilho das estrelas e a grande lua que brilhava cheia no céu.
  — A lua está mais cheia que o normal. – disse um dos guerreiros.
  Um vento gélido soprou as faces dos que estavam parados no meio da vila, os cabelos negros dos guerreiros dançaram no vento e os pelos em seus corpos se arrepiaram, a lua foi ficando escura e avermelhada e com um rugido que estremeceu os tetos de palha das ocas, um vulto negro cortou o céu e se chocou contra o chão.
  — Ele chegou! – disse a velha.
  — GUERREIROS... APOSTOS! – exclamou o homem barbudo e todos os guerreiros elevaram suas lanças, seus escudos e espadas.
  Com o impacto, uma nuvem de poeira se levantou e encobriu a visão dos guerreiros os impedindo de ver o que realmente havia caído. Um brilho estranho começou a reluzir na cortina de fumaça e dela saiu uma bola de fogo que foi em direção aos guerreiros.
  — OS ESCUDOS! – exclamou o homem de barba e todos os guerreiros, em uma formação quase que impenetrável, se puseram.
  As chamas se chocaram com os escudos e neles ficaram. Quando a fumaça abaixou o demônio pode ser visto sobre a lua vermelha que reluzia no céu escuro.
  A velha olhou para o céu e sussurrou:
  — A Lua de Sangue...!
  Então os escudos dos guerreiros desfizeram a barreira, as lanças e espadas tomaram a frente.
  A imagem lúgubre da fera pode ser distinguida da escuridão que a rodeava, era mais medonho que o descrito pelo velho livro, suas asas eram de penugem negras reluzentes, seus olhos não eram mais negros e sim avermelhados e sua pele era tão clara e fria como a neve, porém sua face era demoníaca e indescritível.
  — AD CASTELLUM! – exclamou o velho.
  Então, em um grito conjunto, os guerreiros se puseram a atacar e se dirigir contra a fera. As lanças foram jogadas, porém antes mesmo que tocassem o demônio, se desfizeram em pó e foram levadas pelo vento.       Então a fera veio contra os guerreiros e não apenas a lua se tornou sangrenta, mas a batalha também.
  — Vamos, precisamos fazê-lo agora! – disse o velho.
  A velha abriu o livro e começou a conjurar e proclamar as palavras neles contidas.
  — “Angeli Dei, venerunt ad me”... – então círculos reluziram no chão e rasgaram a terrar. – “Carcerem daemonum incarcerant ceteris creaturis diaboli et reduc”... – ela exclamou.
  O demônio, ao ouvir as palavras olhou diretamente para o livro que se encontrava nas mãos da velha, então foi em direção a ela, os guerreiros que ainda restavam de pé tentaram impedir, porém, foram dilacerados.
  — CUIDADO! – o homem de barba que estava caído no chão exclamou.
  O velho se pôs entre a velha e o monstro e então exclamou:
  — Eu espero você há anos!
  O demônio rugiu para ele em tom de desafio.
  — Hoje eu morrerei, mas você irá para o inferno junto comigo! – o velho exclamou.
  Então o demônio avançou em direção ao velho, porém, o velho sendo um grande mago guardião, impôs uma barreira entre os dois, depois elevou duas grandes pedras e as chocou contra o monstro que as desfez em pedaços e após isso lançou uma grande bola de fogo que foi congelada graças a um feitiço conjurado pelo velho.
  — Chega disso! – exclamou o velho correndo em direção ao monstro.
  A fera foi em direção ao velho que lhe lançou uma grande chama azul que foi desviada pela ventania causada pelo bater de asas do demônio que em seguida perfurou um dos pulmões do velho, que caiu de joelhos enquanto olhava nos olhos da fera.
  Uma luz cortou o peito da fera e passou por cima da cabeça do velho, quando o feixe de luz atingiu o demônio, uma armadura de pedra foi se forjando nele, porém, com um rugido da fera, a armadura que o possuía foi despedaçada e então ele lançou uma bola de fogo que saiu de sua boca em direção a velha que a desviou com um movimento rápido com a mão. Então houve um silencio repentino e uma troca de olhares entre a fera e a velha.
  — Não se lembra de mim?! Sou eu, Yofiel, o mesmo anjo cujo você tentou destruir antes de ser banido dos céus! – exclamou a velha. – Enfim eu posso te destruir! – ela exclamou se transformando em um anjo com asas brancas e cabelos negros que foi de encontro ao demônio.
  Em uma batalha épica entre a mulher, ou melhor, o anjo e o demônio, o destino do resto da vida na Terra foi traçado quando o demônio fincou a garra no peito do anjo e dilacerou seu coração.
  — Se eu não posso sair vivo, você também não irá! – ele disse enquanto segurava o braço do demônio e o puxava para mais perto.
  — NÃO YOFIEL, NÃO FAÇA ISSO! – o velho que cuspia sangue exclamou com muito esforço.
  — Spiritus qui a duabus animabus. – o anjo exclamou enquanto envolvia o demônio em suas asas brancas.
Então um círculo de fogo os rodeou e uma chama azul tomou conta dos corpos dos dois, da velha e do demônio.
  A lua de sangue se desfez e voltou a ser branca. O chão que antes era tomado por grama, agora estava banhado pelo sangue dos mais nobres guerreiros, a vida que antes florescia na vila esquecida do norte das montanhas agora se transformava em morte, a batalha que ali fora travada por vinte homens, um anjo e um velho mago agora estava na memoria de apenas um dos guerreiros que sobrevivera.
  Em seu leito de morte, o velho guerreiro que sobrevivera a batalha disse ao seu filho:
"Antes de morrer eu pude ver o anjo tomar o espirito do demônio e o demônio o corpo do anjo, enfim entendi, anjos são demônios e demônios são anjos, cabe a nós enxerga-los como bem entendemos."

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